Kamel Riahi (Tunísia)
De uma varanda no piso 13 do Hotel África,vejo os telhados da capital enquanto espero o meu amigo, o
tradutor italiano Francesco Legio, que está de visita a Túnis para apresentar uma conferência sobre o romance árabe na luta contra a ditadura. Os meus olhos vão longe, saltando sobre os telhados brancos que, rapidamente, se transformaram aos meus olhos em túmulos alinhados. Uma estranha sensação de melancolia e réquiemcaía sobre mimno primeiro aniversário da revolução tunisina. Olho para a multidão que anda na avenida do presidente. Grandes multidões dão os seus passos numa sensação de desespero, talvez pelo meu sentimento, mas na verdade, antes de entrar no hotel vi uma grande desolação nas suas caras, tal como quem recebe condolências. Será que a revolução se suicidou? Levo a cabeça aoscéus, num prédio que não os arranha, um edifício alto,órfão e autoritário no coração de uma cidade pequena. O som de um avião próximo rasga uma pobre nuvem perdida num céu azul. Essa cor começou a perturbar a minha disposição, nela desmoronam-se os acontecimentos do 11 de Setembro e corro, na imaginação,pelas ruínas distantes.
O suicídio dos aviões do 11 deSetembro, que explodiram nas torres gémeas, foram apenas um suicídio simbólico da liberdade de viagem, pois o meio de transporte que era o barco da liberdade e da vida tornou-se um instrumento de crime e um barco de terror que traz a morte de um país longe e desconhecido. E o “outro” que ele transporta não é mais do que o inferno descrito por Sartre.
Quando o símbolo se suicida, mata-se a ele próprio e aos outros também.Assim fizeram os aviões quando se suicidaram: mataram o sentido em si. Não está muito longe disto a ideia de PierreBourdieu, queinterpretou a queda das torres gémeas como suicídio simbólico. Será que a revolução e a modernidade se suicidaram ao explodir a liberdade no espaço do caos?
É a primeira vez depois da revolução de 14 de Janeiro que o tunisino se encontra num impasse: quem é exactamente? Essa pergunta não era feita antes; era o tunisino, sim o tunisino.A palavra“tunisino” encontrava-sereduzida em todo o projecto modernista seguido pela Tunísia desde há um século e, ainda antes, com os movimentos modernistas de Khayreddine Pacha e Tahar al Haddad, entre outros.Hoje é colocada de novo a questão da identidade, pois o termo “tunisino” e “tunisinos” deixou de responder precisamente à pergunta: quem sou eu? Quem somos nós?
Desde o incidente da sala do cinema Africa Art que se instaurou a palavra de ordem “fobia” entre os criativos e intelectuais. O incidente deu-se quando o cinema Africa Art divulgou, entre as suas actividades, o filme de Nadia Al Feni, “Nem Deus nem senhor”,que provocou os islamitas extremistas, levando-os inicialmente a protestar em frente à sala. De seguida, partiram aporta envidraçada, irrompendopela sala numa tentativa de impedir a projecção do filme. O acontecimento suscitou grande polémica e debate entre os intelectuais dentro do país revoltado e até hoje em dia a questão não está resolvida.
A seguir vem a questão do canal Nessma e o facto de ter passado o filme iraniano“Persépolis”, para se repetir de novo a mesma cena de uma forma mais violenta e sanguinária, acusando o canal de passar um filme de desenhos animados no qual foi representada a santa divindade. A saída dos fanáticos que lideraram as manifestações e protestos não coibiu a multidão de se juntar a eles, sob a indução de outros meios de comunicação concorrentes, públicos e privados, para que o assunto passasse a ter outra dimensão e voltasse a ser uma questão de opinião pública. Inclusivamente, a sede do canal foi atacada por centenas de pessoas, instigadas a matar os que aí trabalhavam. Foi também atacado o Ministério da Cultura, que não condenara o canal que, segundo eles, tinha cometido o grande pecado, ao divulgar um filme representando a santa divindade. O caso chegou até ao ataque da casa do proprietário do canal onde o tentaram matar a ele e à família, explodindo a porta da sua casa com um tubo de gás, ainda que eletivesse pedido desculpa e reconhecido o erro, publicamente, nos media.
Parece que o reconhecimento do erro agravou ainda mais o problema. Assim, ficámos perante uma nova cena de Islamofobia interna, o que nos faz pensar sobre o destino do modernismo tunisino e o futuro da revolução. Sobretudo, uma vez que a emissora foi apresentada como um meio de comunicação alternativo, progressista e modernista, que recrutou pensadores, universitários e investigadores modernistas entre os laicos, assim como moderados e centristas entre os islamitas.Ao pedir desculpas por passar um filme iraniano, que descreve a gravidade do golpe na revolução e a queda da sociedade iraniana nas mãos da inquisição “Khomeinita”, o director do canal surge e mina a sua linha editorial.
No primeiro teste verdadeiro, o canal caía na tréguae nas desculpas, revelando a fragilidade da sua linha editorial e dos seus fundamentos básicos. O capital faz-se sempre covarde. Evoco aqui a expressão de Justin Bieber:“a identidade nunca é ganha pacificamente: mas é apresentada como garantia peranteo perigo de genocídio ou exclusão por parte de uma outra identidade”. O que fez este canal para defender as suas escolhas comunicacionais e culturais?
Era como se o Sr. Karoui, director do canal, fosse um modernista com um negóciopor conta própria; sempre que quisesse, podia trocar a mercearia da modernidade por uma loja de venda de vestuário islâmico aos homens.A desculpa é uma forma de liberdade de expressão, mas também feriu a liberdade de expressão ao reconhecer o poder da rua e a força dos fanáticos obrigando, em seguida, todos os movimentos culturais da sociedade a ficar reféns do duelo de halal e haram e do “pode ou não pode ser”, colocando num impasse todos os colaboradores com o canal, -pensadores, universitários einvestigadores-. Caímos de novo no conflito das identidades parciais etambémpodemos assim dizer, ao ver o que se está a passar nas ruas repletas de gás lacrimogéneo, explosões e ataques a pessoas e instituições, que já caímos no que foi chamado por Amin Maalouf de “As identidades assassinas”.
Enquanto a emissora pede desculpas pelo que fez e recua sobre a sua linha editorial, opovo sai à rua a pedir a liberdade, de novo, em manifestações em massa sob o mote“liberta-me”, levando assim ao aparecimento de muitos outros slogans recusando qualquer tutela religiosa sacerdotal, tais como “eu sou livre e a Tunísia é para todos”, “liberta-me e deixa-me entre mim e o meu criador”, “A Tunísia é um país muçulmano, não de fundamentalistas”, “ Liberta-me, a minha liberdade também é sagrada”, “no dia 14 pedimos a liberdade, não o retrocesso”, “ant


































































